Trump x Redes Sociais: defesa à democracia ou censura à liberdade de expressão?

Definitivamente os Estados Unidos não vivem seus melhores dias. Não bastasse a liderança negativa nos números da Covid-19, o país que sempre foi sinônimo de uma democracia forte e inabalável, sofre agora com uma das crises políticas mais profundas de sua história. E as redes sociais têm um papel determinante neste processo.

Nas eleições presidenciais de 2016, vencida por Donald Trump, já surgiam questionamentos sobre a influência das redes sociais na corrida eleitoral. Para entender um pouco melhor o contexto, é recomendável assistir “Privacidade Hackeada”, um documentário da Netflix que analisa o escândalo sobre o uso de dados colhidos nas plataformas digitais pela empresa Cambridge Analytica, sem o consentimento de seus usuários, e como isso teria influenciado nos resultados das eleições daquele ano.

Fato é que, a partir de 2016, as redes sociais se tornaram extremamente polarizadas, criando bolhas nocivas às relações humanas, espalhando o ódio, provocando o afastamento entre usuários e a disseminação de informações falsas que afetam em cheio o dia a dia das pessoas.

É impossível negar que Donald Trump foi um dos principais agentes protagonistas desta contenda. Às vezes temos a impressão de que ele foi criado para isso. Trump, que já esteve à frente de um reality show televisivo, usou com maestria todos os recursos do ambiente digital. Criou conteúdo frequente (diversas publicações no mesmo dia), provocou adversários, fez “memes”, questionou decisões de outras esferas governamentais e até internacionais, promoveu discursos extremistas e, o mais impressionante, engajou uma legião gigantesca de fiéis seguidores.

O presidente dos Estados Unidos já flertava com restrições por parte de algumas plataformas quando publicava conteúdos considerados duvidosos, caluniosos e até enganosos (fake news), como o posicionamento negacionista diante da Covid-19 e a alegação de que as eleições presidenciais de 2020 no país tivessem sido fraudadas, colocando em xeque o próprio sistema que o elegeu quatro anos antes.

Suspensão das contas do ex-presidente gera debates sobre papel das redes

A gota d´água aconteceu no dia 06 de janeiro de 2021, depois que as inflamadas declarações do presidente republicano impulsionaram a invasão ao Capitólio (sede do Congresso americano) por seus apoiadores, justamente no dia da contagem de votos para certificar a vitória do democrata Joe Biden. Um protesto desastroso que terminou em cinco mortes, dezenas de prisões e uma mancha na democracia dos Estados Unidos.

Para muitos, foi neste momento que Trump ultrapassou a linha do aceitável. Ele entrou em uma área perigosa colando em risco o próprio Estado. E como medida de emergência para conter o avanço da violência e outros desdobramentos de igual gravidade, as redes sociais suspenderam suas postagens e em seguida bloquearam suas contas. 

Ao menos 12 empresas se manifestaram contra a continuidade das publicações de Trump ou relacionadas a ele em suas plataformas: Facebook; Instagram; Twitter; Google; Snapchat; Shopfy; Reddit; Twitch; YouTube; TikTok; Discord e Pinterest.

Em um primeiro momento, essa parece ter sido uma iniciativa saudável para a democracia dos Estados Unidos. Porém, surgem questionamentos sobre a legitimidade dessas grandes empresas (privadas) para decidir o que um presidente pode ou não falar em suas plataformas. 

Seria arriscado deixar a regulação das redes sociais nas mãos do próprio Estado?

Essas corporações multibilionárias acertaram ao assumir a postura de acusação, julgamento e execução de uma pena imposta a um usuário?

Em um contexto de incitação à violência, como a invasão ao Capitólio, as redes têm o direito de restringir o acesso à sua plataforma seguindo os termos de serviço e regulamentos da comunidade?

Não deveria existir uma legislação internacional com padrões, regras e diretrizes relacionadas à liberdade de expressão? 

Por fim, a ação contra Trump foi uma defesa à democracia ou uma censura?

Mesmo diante de tantas indagações, podemos notar que a passagem instantânea de Trump pelo comando dos Estados Unidos é uma demonstração de que os ciclos de poder em geral estão cada vez mais curtos. Um reflexo claro da própria dinâmica das redes, uma verdadeira montanha-russa. Os mesmos artifícios e ferramentas que o ajudaram a chegar à cadeira mais alta do país também ajudaram em sua derrocada. Um dia é da caça e o outro é do caçado

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